domingo, 11 de julho de 2010

Agora que partiste

Agora que partiste
E sobre mim
Deixaste as cinzas do teu amor

Agora que o dia se dilui
Tímido mas sublime
E o mar escurece

Agora que as luzes da cidade
Aprendem a brilhar mais uma vez
E as ruas ficam abertas

Agora que a vida se deita
E adormece aconchegada
Longe dos punhais

Agora finalmente sei
Que há algo de grandioso
Nas coisas que terminam.



Fábio Nobre

segunda-feira, 29 de março de 2010

Não consigo saber o que sou


Não consigo saber o que sou. O espelho não reflecte o que eu vejo quando fecho os olhos. Não consigo caber neste mundo sufocante. O meu coração é o meu armário. Lá guardo tudo, o que sou, o que quero ser, o que nunca fui. Dói-me esta vontade de existir, este grito mudo que engulo sem saber como.


Os dias acumulam-se em meus ombros, como se me martelassem o peso do tempo. Estou atrasado, estou adiantado, não estou. A vida foge-me com a mesma voracidade com que a persigo. Perco tempo a persegui-la, perco tempo a desejá-la. Estou intermitente, ora sou, ora quero ser.


Mais vale sentar-me e ficar vazio. Não ser os sentimentos nem as emoções. Dentro das minhas pálpebras, sou tudo. Deixo-me ficar assim. E o mundo continua na mesma…



Fábio Nobre

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Memórias...


Aprendi a amanhecer em ti, a ser orvalho nos teus lábios. Aprendi a fazer sentido nos teus gestos e a aninhar-me no teu corpo. Senti-me imortal no teu olhar, infinito nos teus braços. Amei-te como se te amar fosse a minha missão na terra. Tive asas nos teus beijos, fui livre nas nossas noites de amor.


Mas o sentir atordoa, o amor enlouquece e o desejo queima. Quis-te demais e não soube como te consumir. Fomos cidade após terramoto. Beleza e silêncio trágicos. Ardemos sem saber arder. O verdadeiro sentimento não dura. Se durasse não seria real. Explodimos juntos. Agora somos somente memórias...



Fábio Nobre 30/012010


quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A quê?


A que é que se resume a nossa existência? Talvez a um abraço sentido que engloba toda uma vida. A um beijo distante, portador de todo o mundo. Porventura, a uma palavra dita no momento certo.



Até onde vai o nosso coração? Capaz do melhor e do pior, percorre as extremidades do nosso espírito. Quem somos e do que somos capazes? Fazer da água vinho, voar com asas de seda? Em que ponto nos precipitamos? Qual o limite para as nossas acções?



Será o amor a medida de todas as coisas? Será o ser humano capaz de conter em si tudo o que há no universo? Conseguiremos nós ser mais do que vermes rastejantes? Haverá momentos em que somos sublimes? Hoje a vida é um poço escuro mas amanhã tudo parecerá melhor



Fábio Nobre

domingo, 20 de dezembro de 2009

Ser criança...


Ser criança é acreditar que a lua é feita de queijo. Que o sol se deita no mar e as nuvens são feitas de algodão doce. Ser criança é chorar por ter o joelho ensanguentado como se isso fosse o fim do mundo. É acordar todos os dias com mil e uma coisas novas para descobrir.


Eu já fui criança. Já joguei ao berlinde, já joguei à bola com uma garrafa de plástico, já gostei da menina mais bonita da turma. Acordava cedinho de manhã para ver os desenhos animados, brincava na rua com os meus amigos, chegava atrasado para jantar porque não ouvia a minha mãe chamar. Já possuí no olhar o brilho da irresponsabilidade, da ingenuidade. Acreditei que os bebés nasciam de beijinhos na boca, não pensava nos problemas do mundo, a minha vida começava e acabava na minha cidade. Tinha a certeza que o pai natal descia da chaminé e tinha pena por sujar as calças de cinza quando aterrasse na lareira. Abraçava a minha mãe e não tinha medo de lhe dizer que a amava, admirava o meu pai e queria ser Homem como ele um dia.


Eu já fui criança. A minha vida já foi um recreio. Já acreditei nas coisas perfeitas. Já quis ser astronauta. Imaginava que iria casar com uma menina linda, de longos cabelos escuros e teríamos muitos filhos pequeninos. Já fui criança. Já fui feliz.


Já não sou mais criança.


Fábio Nobre 13/11/09

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Não és


É no teu corpo que eu sacio o meu desejo. É em ti que eu me banqueteio vezes sem conta. Matas-me a fome. Gosto de estar dentro de ti, és o poço que extingue a minha sede.


Nunca serás a mulher que amo. Nunca te verei jardim na minha vida. És apenas os meus cinco segundos de prazer. E não percebes, teimas em não entender que só te quero por cinco segundos. Depois disso preciso de estar longe…bem longe, chegas a enojar-me, ficas suja. Humilhas-te uma e outra vez. Não se compra amor com sexo. O teu corpo não é moeda de troca. É apenas o meu parque de diversões…porque sei que a mulher que quero não me ama.




Fábio Nobre

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Eu amo a minha cidade


Quando o sol se deita e sobre ela estende os seus raios como se a reclamasse toda para si, eu amo a minha cidade. No crepúsculo do dia, a minha cidade é o paraíso porque é bela e faz amor com o mar. Irrompe pela terra a gritar a plenos pulmões que existe. Tem um aroma a África a minha cidade: cheira a desertos austeros, a casas de barro, a chás exóticos, a túnicas que cobrem a face, a pele queimada…


Eu amo a minha cidade porque cresci nela e ela cresceu comigo. As suas praias são, porventura, lágrimas minhas: salgadas. À noite a minha cidade vai com os pescadores, acompanha-os nas traineiras em busca do peixe, conforta-os e trá-los de volta às suas famílias com os seus faróis. A minha cidade já teve golfinhos nas suas águas, que agora choram a sua ausência. A minha cidade é bela porque a beleza está nos olhos de quem a vê, de quem não a questiona…apenas a admira.


A minha cidade é o ponto de partida para o resto do mundo. O oceano, grande e rebelde, vem na madrugada dormir no regaço da minha cidade, aconchegado e tranquilo: sereno. E assim embala muitos corações em momentos de paixão nas suas areias…




Fábio Nobre 25\09\09