terça-feira, 7 de julho de 2009

É tão fácil...


As coisas mais simples são sempre as mais complicadas. É tão simples amar alguém. É tão complicado admitir isso. É tão simples magoar alguém. É tão complicado quando saímos magoados. As coisas mais simples são sempre as mais complicadas porque não há meio-termo quando se é humano.


FN 16\03\2009

terça-feira, 2 de junho de 2009

Havia um mundo...


Havia um mundo onde as pessoas não tinham boca. As palavras não existiam. Beijos e sorrisos não existiam. As pessoas alimentavam-se de silêncio. De silêncio apenas. Comunicavam sobretudo através do olhar. Nesse mundo ninguém podia mentir porque o olhar não mente. Nesse mundo o amor era verdadeiro porque o olhar não mente. Nesse mundo, as pessoas eram felizes porque não sabiam. Não sabiam o poder das palavras. Nesse mundo as pessoas eram sinceras.


AMO-TE nesse mundo eram duas mãos entrelaçadas e um olhar cúmplice. AMO-TE nesse mundo era o silêncio de um coração a bater descompassadamente. Era tudo tão simples nesse mundo onde as pessoas não tinham boca. Tudo tão natural e completo. Existir uma palavra nesse mundo seria um incêndio que jamais se apagaria…


E eis, que um dia…nasce um menino com boca.




Fábio Nobre 06\03\2009

terça-feira, 12 de maio de 2009

Talvez


Talvez, se tudo tivesse sido diferente, estivéssemos hoje juntos. Se o mundo girasse ao contrário ou os oceanos desaguassem nos rios, talvez dormíssemos hoje na mesma cama. Se não tivesse ficado enleado nos fios do destino, talvez lutasse por ti…



Fábio Nobre

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Quando tudo cai...


Ele olhou-a nos olhos e soube. Ela não aguentou e baixou a cabeça. Começou a chorar como se isso a desculpasse e, entre soluços e gaguejos, balbuciava palavras de arrependimento e apelava vergonhosamente à sua compreensão.


- Quantas vezes foram? – a pergunta que era simultaneamente o seu punhal e a sua ferida, numa certeza desconcertante de ter já o coração quebrado.


-Foi só essa vez e foi porque, porque… - as frases já não lhe saiam completas e ela sabia que o havia perdido para sempre.


- Sai! Sai já do quarto que um dia foi nosso mas que tu profanaste como só as vacas sabem fazer.
Ela saiu. Ele ficou. Ela chorava. Ele chorou. Olhou para os lençóis onde a traição fora consumada, arrancou-os da cama e deitou-se apenas no colchão. Pensou que chorar não valia a pena. Que as lágrimas que possuía eram de longe mais valiosas que qualquer mulher. Sentiu nesse momento que o amor era uma névoa, uma bruma como Avalon, que na realidade não existia mesmo. Sentiu que as mulheres não sabiam amar e jurou nunca mais se entregar a mais nenhuma.


Ela estava desconsolada. Sentia que tinha perdido o homem da sua vida por um momento de fraqueza. Odiou-se. Olhava no espelho com repugnância. Telefonou-lhe vezes sem conta mas nunca chegou a ouvir a sua voz. Ficou sozinha durante anos. Nunca mais soube amar tão intensamente.




Fábio Nobre 06\09\08

quarta-feira, 1 de abril de 2009

O mundo é teu


Ouve o silêncio. Encontra o teu espaço. Pára e ouve o mundo em teu redor. Vê a criança que pula de alegria porque sabe que a mãe lhe vai comprar o gelado de chocolate. Olha o velhote sentado no banco de jardim a ler as notícias do seu clube favorito. Repara nos miúdos a jogar à bola com uma garrafa de água vazia. Ouve os passarinhos nas árvores altas. Pára. Fecha os olhos e sente. Limita-te a existir por um momento.


O cheiro a pipocas de uma vendedora ambulante. O sol na tua cabeça. A vida num dia de cada vez. Pensa nisso. A vida num dia de cada vez. Não apressemos as coisas. Sejamos somente o presente. Sejamos a criança que saboreia o gelado de chocolate, o velhote na sua tranquilidade, os miúdos traquinas, os passarinhos que voam…


Percebes agora a beleza do presente? Vês agora a beleza da vida? Entendes agora que o presente é tudo o que temos? Abre os braços e sorri…porque o mundo é teu sempre que quiseres.



Fábio Nobre 27\02\2009

segunda-feira, 2 de março de 2009

ÉS...


És o meu precipício. O lugar onde eu deixo de fazer sentido. O ponto onde todas as minhas certezas se esfumam como se nunca tivessem existido. Onde o sol não é mais o sol e o oceano não é mais o oceano. És o canto das sereias que me embala na noite. És a montanha que está sempre longe, por mais que eu caminhe na sua direcção. A poesia que é a mais linda porque nunca foi escrita.


És o meu ponto fraco. Onde as coisas me doem com mais voracidade. És as feridas que nunca cicatrizam. És as minhas lágrimas num dia de chuva. O incêndio que lavra em mim há tempo demais. És talvez a tempestade de areia que me tornou um deserto.


Não sei onde acabo eu e começas tu. Não sei ao certo que palavras são tuas nas minhas frases. Sei apenas que és o meu medo. O local em mim onde a fronteira entre o que desejo e temo são difusas. O sítio onde nunca é dia e nunca é noite…

Fábio Nobre